O Fim dos Executivos
Nesta quinta-feira às 15h30 fui ao cinema. Estava em casa a trabalhar e resolvi sair para me divertir um pouco. Voltei do cinema renovado, sentindo-me mais criativo, mais vivo.
Como me atrevo a fazer isso em pleno "horário de expediente"? É que eu não quero mais ser um Executivo. Sou um Realizador Criativo.
Hoje, discute-se muito a Nova Economia, a quebra de paradigmas, etc. e tal. Mas, exactamente o que quer dizer isso? Apenas novas tecnologias? Globalização? Internet?
Penso que a Nova Economia é acima de tudo uma mudança de comportamento da sociedade, portanto muito mais complicado do que apenas o jogo das bolsas de valores. Pensem comigo: como era a velha economia? O centro, a indústria. O coração, a linha de montagem. A organização, a burocracia. O conceito, a padronização. O mercado era massa. Foi nessa estrutura que nasceram os Executivos ou "aqueles que executam".
Nesta estrutura a centralização era fundamental. Cidades inteiras foram construídas ao redor da fábrica, para onde todos se dirigiam e saiam no mesmo horário. Um erro na linha de montagem poderia ocasionar acidentes e prejuízos. Logo o controle tinha que ser rígido e inflexível. Os Executivos eram os responsáveis pelo perfeito funcionamento da fábrica e dedicaram todo o seu tempo a isso. Sacrificaram as suas famílias, as suas horas de lazer, a sua juventude. Tudo em nome da fábrica.
Passaram-se duzentos anos. As fábricas foram-se automatizando e no processo, milhares de empregos desapareceram. Os Executivos foram chamados a pensar e a criar. Os que não conseguiram estão sendo aposentados precocemente. Cruel realidade.
Culpa da Nova Economia que está baseada noutros critérios: complexidade e descontinuidade. A este respeito, Domenico De Masi , sociólogo italiano diz:
"É preciso educar para a descontinuidade e a complexidade. Quando a sociedade industrial enfrentava um problema, tentava simplificá-lo, transformando-o em vários pequenos problemas simples. Já a sociedade pós-industrial é capaz de enfrentar problemas complexos porque tem a tecnologia como aliada que a auxilia a encontrar soluções complexas. Isso torna toda a cadeia de necessidades, problemas, técnicas e soluções muito mais coerente, rica e humana. Porque o ser humano é complexo. Só os instintos animais são simples".
Sobre a descontinuidade, De Masi reflecte: "O relógio mecânico não é uma continuação da ampulheta, nem do relógio quartzo, assim como o fax não é o telefone. A continuidade cedeu lugar à descontinuidade e a pedagogia pós-industrial deve-nos ajudar a adequar, rapidamente, os mecanismos da nossa mente aos contínuos saltos lógicos que o progresso exige."
Isso significa que, ao utilizar o computador, por exemplo, apenas para fazer o que se fazia numa máquina de escrever, estamos rebaixando a complexidade inerente aos novos tempos e, mais cedo ou mais tarde, teremos problemas de adaptação.
É aí que entra o Criativo Realizador e sai o Executivo. Somente mentes criativas estão abertas à complexidade e à constante aprendizagem.
O problema é que mentes criativas não param de trabalhar às 19h. A criatividade também não sobrevive sufocada em ambientes burocráticos e inflexíveis. Ela precisa de ser alimentada diariamente com a liberdade de se quebrarem rotinas. Como ir ao cinema numa quinta-feira à tarde simplesmente porque você está com vontade.
Vejam bem, mesmo no cinema, a mente do Criativo Realizador não pára. A do Executivo sim, pois está condicionada a separar trabalho de lazer e vê no trabalho um sacrifício e não uma fonte de prazer.
Na Nova Economia, trabalho e lazer, cada vez mais vão se confundir na vida das pessoas, pois trabalho não será mais considerado como algo pesado, cansativo e angustiante. O pesado, o cansativo e o angustiante será feito por máquinas. Para nós fica a missão de criar.
Mudança difícil esta, eu sei bem. De Masi utiliza uma imagem muito lúdica para ilustrar a situação: peixinhos que nasceram em aquários, quando são soltos no oceano, continuam nadando em círculos por um bom tempo até descobrirem que podem ir para bem além do horizonte.
Ir além dos limites. Cá entre nós, esse não é um desafio criativo maravilhoso?


