Sábado, 04 de Março de 2006

Marketing pessoal

Ostras são todas iguais. Pelo menos por fora. A diferença está no que algumas trazem dentro de si. Pérolas. Só reveladas pelas bocas abertas a golpes de faca.

O mundo está cheio de ostras profissionais. Cascas horrendas, de rudes e ásperas. Perolizando informações sugadas de uma vida de estudos e experiências. Mas que mantém as bocas teimosamente fechadas para as pérolas reclusas do seu conhecimento profissional. Perdidas no muco das suas camadas cerebrais.

À medida que o mercado passa a valorizar o conhecimento, as ostras começam a agitarem-se. Umas, mais afoitas e vulgares, espirram sujidade que só turvam a água em que estão inseridas. Deixando as suas pérolas embaciadas pela falta de distinção.

Outras investem num meticuloso e polido marketing pessoal, transluzindo a preciosidade através da madrepérola da casca. Numa revelação discreta e quase sensual do seu interior, despertam no mercado o desejo de ver mais. E pagar para tal.

Existe em nós um desejo natural de revelar o que sabemos na forma de opiniões. E insistir para que outros as comprem, ainda que o único pagamento seja a satisfação do reconhecimento público de que estamos com a razão.

Encontramos esses vendedores de opiniões em todos os lugares. Nos cafés, nos restaurantes, na filas dos bancos e nos estádios de futebol. Todos procuram conquistar o mercado das atenções e fazer prevalecer a sua marca.

Mas na hora de expor aquilo em nós que é vendável, viramos ostras. Mesmo o mais eloquente vendedor de seu conhecimento futebolístico ou político acaba retraindo-se ao falar da sua capacidade profissional. Acha que expor seu produto é ser esnobe e inconveniente.

Talvez isto aconteça por existir uma linha muito ténue entre o marketing pessoal e a altivez. Essa odiosa tendência de acharmos que o universo gira à nossa volta. Não é invulgar a vanglória ser fruto da insegurança gerada pela incompetência que transforma coroas de lata em títulos de nobreza e um ego que lateja em pedigree.

Quando falamos de marketing pessoal, estamo-nos a referir à exposição fria e comercial de um produto acabado. O conhecimento que é colocado em prática na forma de competência.

A grande área de exposição promocional de baixo custo que a Internet oferece, permite aos profissionais posicionarem-se como produtos para o mercado. São currículos que trocam envelopes pardos por um lugar de eminência nada parda nos sites de recursos humanos ou home-pages pessoais muito bem elaboradas.

A princípio pode parecer complicado gerir esse dois-em-um, pessoa e produto. Ou mais-de-dois-em-um, se tiver múltiplas capacidades. Mas não é, se souber separar a pessoa do profissional, e o produto do ego.

Escrito por Fernando Fraga em 16:34:46 | Link permanente | Comments (0) |

As empresas estão cheias de cadáveres

Em muitas empresas, vemos cadáveres ambulantes: gente que morreu e não sabe. O brilho dos olhos foi-se, o fogo apagou, a energia sumiu. Provavelmente já estiveram cheios de entusiasmo, mas depois de tantas chicotadas, desistiram. Morreram por dentro mas não tem coragem de assumir. Por mais infelizes que estejam, têm medo de arriscar e serem felizes.

Algumas das coisas mais importantes nas nossas vidas só aprendemos pelo velho método de tentativa e erro. Ou pela experiência, com o passar dos anos. Ou observando os outros. Algumas pessoas aproveitam isso para crescer. Outras ficam desmotivadas entregam-se.

Coisas como ser pai, mãe, um bom marido, ou esposa, amigo, chefe (agora a moda é falar em líder) e até mesmo vender se aprende fazendo. Livros, revistas e cursos ajudam, mas é como estudar teoria musical: o sujeito sabe tudo no papel, mas não sabe que está a desafinar. E leva o maior susto quando se senta na frente do piano para tocar. O som, que é o resultado final e justamente o mais importante, só o vai entender tocando e ouvindo.

A mesma coisa acontece com os filhos, relacionamentos amorosos, até mesmo o desporto. Por isso os verdadeiros campeões treinam durante horas a fio. É para que os actos se tornem quase mecânicos, mesmo nos mais pequenos detalhes. As situações são reconhecidas automaticamente – não precisam de pensar muito. É só olhar para se saber rapidamente o que está acontecendo.

Por isso também os pilotos de Fórmula 1 dão sempre uma ou duas voltas a pé pelo circuito antes de largar para os treinos com o carro. Querem reconhecer cada curva, as ondulações da pista, o comprimento das rectas. Seria a mesma coisa se olhassem um mapa com a descrição do circuito? É claro que não.

Mesmo depois, já no carro, as primeiras voltas são lentas. Em velocidade segura, pode-se errar sem grandes problemas. Porque mesmo os grandes campeões sabem que vão errar. Então o que fazem? Estudam o máximo possível e passam horas analisando todos os detalhes, para quando chegar o grande momento as probabilidades de erro se reduzirem drasticamente. E mesmo assim os erros acontecem.

Essa é a grande diferença dos vencedores: reconhecer que para terem sucesso é preciso arriscar, e que o risco tem sempre possibilidade de erro. Decidir finalmente qual a melhor alternativa e agir. Uma vez que ‘o que’ fazer está decidido, o resto é fácil – é só uma questão de ‘como’.

Porque o pior pecado que se pode cometer é errar por omissão. Por medo. Por preguiça. Tem tanta gente que fica esperando a oportunidade ideal... e a oportunidade ideal nunca surge. Simplesmente porque não existe. Acabam não fazendo coisa alguma. E a vida passa. E acabam morrendo, de verdade, ou pior: por dentro. Já nem sabem mais porque vivem.

Na imensa maioria das vezes, é um erro maior ficar parado e não agir do que tomar alguma decisão – mesmo que errada. Porque se estiver errada, vai ser fácil descobrir e consertar. Além disso, pelo menos controlamos.

O que nos leva a outra característica do sucesso: já dizia um filósofo que as pessoas de sucesso criam as suas próprias oportunidades. Ou pelo menos vêem melhor as oportunidades disponíveis. Ao contrário dos perdedores, que acabam sempre por ter que decidir entre situações sobre as quais não tem o mínimo controle. E quem não tem controle sobre a sua própria vida não tem nada. Por mais dinheiro que tenha, quem não controla a sua própria vida vai ser sempre pobre.

Isso significa que qualquer pessoa, independentemente da profissão, formação, sexo, religião ou raça, tem a grande liberdade de escolher a sua própria atitude perante a vida. Pode ser uma atitude corajosa, ambiciosa, disposta ao risco calculado. Uma vida na qual tem o controle. E se der certo ou errado, foi seu certo ou errado dele – não o dos outros.

Por outro lado, podemos sempre escolher a vida segura. Tomar decisões procurando sempre a certeza. Só dar um passo quando estiver tudo sob controle. Nunca arriscar. Ser daquelas pessoas que confundem segurança com covardia.

Mas essa segurança toda é ilusória – pode acabar de um momento para outro. Por mais que se tente controlar tudo, o universo é grande e complexo demais para ser controlado. O que faremos quando perdermos o controle?

E quando chegar aos 60 anos e olharmos para trás, o que vamos pensar? Já ouvimos falar de alguém que atingiu o sucesso sem se arriscar? Isso simplesmente não existe.

Quem arrisca, e a palavra diz tudo, está correndo o risco. De errar, certamente. Mas também de acertar! Se considerar-mos os nossos erros como método de aprendizagem, e os nossos acertos como vitórias, veremos que em certos momentos da vida vamos ter que se arriscar. Tanto pessoalmente quanto profissionalmente.

Resumindo de forma prática tudo o que foi dito até aqui: se você quer ter sucesso, tem que arriscar e aceitar os seus próprios erros, aprendendo com eles. Mas sem se desencorajar.

Da mesma forma, se uma empresa quiser ter sucesso, tem que aceitar os erros dos seus funcionários. Um ambiente de trabalho onde qualquer deslize é castigado leva fatalmente à acomodação, à falta de criatividade, à desmotivação. Se os erros se repetirem, é claro que as medidas devem ser tomadas. Mas como uma criança que cai ao aprender a caminhar, os erros só acontecem porque alguém fez alguma coisa. Já pensou castigar uma criança toda vez que ela caísse? Teríamos uma nação de adultos rastejando.

Quem não aceita erros vive preso num círculo vicioso de mediocridade e desmotivação. Se a sua empresa é assim, faça alguma coisa! A vida é bela e curta demais para passar-mos a maior parte do seu tempo entre gente tão desmotivada que parece morta. Como disse Mahatma Gandhi , “A verdadeira liberdade é a liberdade de cometer erros”. Então lembre-se dessa regra da vida: se quiser acertar, arrisque, erre, aprenda e viva mais.

Escrito por Fernando Fraga em 16:32:46 | Link permanente | Comments (0) |